Pedro Quintino
UX Writer

Entrevista

Pedro Quintino é UX Writer na Anchorage Digital e tutor da EDIT. Em entrevista, diz-nos o que mais o cativa na área, quais os maiores desafios enquanto profissional da mesma e ainda nos dá a sua opinião quanto às skills e know-how que estes profissionais devem ter para serem bem sucedidos.

O UX writer tem de saber contar histórias com as quais as pessoas se identificam, com uma cadência que seja fácil de ler, num tom positivo e envolvente. Quanto melhor explicarmos uma ideia aos nossos leitores, melhor estes vão saber como usar essa informação para criar um impacto positivo nas suas vidas.


Conta-nos o teu percurso académico e experiência profissional.

Desde cedo que a minha paixão é escrever, mas demorei algum tempo até ter a certeza do que queria fazer—na minha cabeça seria escritor, publicitário, ou designer. Hoje sorrio quando penso nisto porque acho que há um pouco de cada no meu dia a dia.

Estudei Marketing e Publicidade na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. No último ano do curso fiz um estágio em comunicação na Revista Aula Magna, uma revista direcionada para o ensino superior. Após terminar o estágio, tive a minha primeira experiência numa agência digital, a comOn, onde comecei por ser community manager e, mais tarde, copywriter. Escrevi para marcas nacionais e internacionais dos mais variados setores: desde a Nike à Nescafé, do ActivoBank à Chivas Regal. Isso permitiu-me ganhar um conhecimento, experiência e agilidade muito interessantes. Trabalhei ao lado de excelentes profissionais e fiz bons amigos.

Em 2017, enquanto trabalhava no redesign do site da Associação Mutualista Montepio apercebi-me da ascensão do UX writing e da crescente valorização do seu impacto na experiência do utilizador. Foi aí que comecei a interessar-me e a aprofundar o meu conhecimento nesta área.

Depois de cerca de 7 anos em agências digitais e um 1 ano como freelancer, em 2019 comecei a minha carreira de UX writer na Tangível, a primeira empresa de UX em Portugal. Atualmente trabalho com um cliente na área da banca, onde integro uma equipa de designers, researchers, developers e product owners responsável pelo desenvolvimento de vários produtos digitais.


O que é que mais te cativa na área? Quais os maiores desafios com que lidas atualmente, enquanto profissional da mesma?

O conteúdo tem o poder de nos diferenciar da concorrência. Para mim, a possibilidade de refinar e simplificar a forma como as pessoas interagem com uma interface é algo gratificante.

Outro dos aspetos que me cativam é a preocupação que temos de ter com a acessibilidade e a inclusividade em tudo o que fazemos. Os melhores produtos são aqueles que podem ser usados pelo maior número possível de pessoas. Para conseguir isso, não podemos usar linguagem técnica ou complicada. Há pessoas de outras culturas, crenças, raças, ou com problemas visuais e cognitivos, que também vão querer usar o nosso produto. Se não tivermos certos cuidados com a linguagem podemos irritá-las ou mesmo ofendê-las. Refletir sobre estas questões faz com que sintam que o produto foi feito a pensar nelas. Excluí-las pode significar deixar de fora uma fatia dos lucros.

Quanto aos desafios, destaco dois: 1) ter de alertar para que o conteúdo e o design sejam criados ao mesmo tempo, em parceria. Ignorar ou separar este processo pode trazer constrangimentos de tempo e dinheiro e resultar em alterações desnecessárias ao design; 2) O papel do UX writer pode ser um pouco ingrato porque quando o copy se transforma em algo tão simples e natural, quase invisível, as pessoas acham que o processo também é simples. Na verdade, é difícil escrever de uma forma concisa, clara, útil e ainda responsável.


Na tua opinião, que skills e know-how devem ter estes profissionais para serem bem sucedidos?

 

Quando ouvimos o termo “UX writer” pensamos em escrita, mas o UX writer tem de saber fazer mais do que isso. Para ser bem sucedido, deve ter algum conhecimento das metodologias de UX e do processo de design centrado no utilizador. Na minha experiência, quanto mais à vontade estou com as ferramentas de design, mais fácil é a minha interação com a equipa.

Em termos de formação académica, tenho percebido que, um pouco por todo o mundo, a maioria dos UX writers estudaram jornalismo, marketing ou comunicação. No entanto, também há designers a fazerem a transição para UX writing, assim como profissionais da área das ciências sociais, antropólogos ou psicólogos. Isto é muito enriquecedor para uma equipa devido ao conhecimento do comportamento humano que estes profissionais trazem.


Que passos aconselharias tomar a quem gostasse de enveredar profissionalmente por esta área?

Aconselho a aprenderem noções básicas de UX design, a familiarizarem-se com as ferramentas de design (Sketch, Figma, Adobe XD ou InVision), e a assimilarem os fundamentos da escrita para interfaces (consistência, concisão, utilidade) e conceitos como acessibilidade e inclusividade. E porque um dia vão definir ou ajudar a definir o tom e a voz de um produto, aconselho analisarem o guia de estilos de empresas como a Google, Microsoft, MailChimp ou Shopify.

O UX writer tem de saber contar histórias com as quais as pessoas se identificam, com uma cadência que seja fácil de ler, num tom positivo e envolvente. Quanto melhor explicarmos uma ideia aos nossos leitores, melhor estes vão saber como usar essa informação para criar um impacto positivo nas suas vidas. Por último, considero importante a criação de um portfólio. Mesmo sem experiência, é possível fazê-lo com mockups de apps ou sites já existentes, aplicando-lhes sugestões de melhoria e explicando o racional por detrás dessas decisões.


Enquanto tutor do workshop UX Writing Foundations da EDIT., de que forma planeias dinamizar as tuas aulas?

Além dos conceitos-chave, vou apresentar vários exemplos: bons e maus. Também está pensada uma componente prática com exercícios de criação de UX writing para os vários componentes de uma interface.

Acima de tudo, espero conseguir demonstrar o impacto que a escrita tem na experiência do utilizador, e que os alunos levem consigo a ideia de que não se criam boas experiências sem bom conteúdo. E bom conteúdo gera confiança nas marcas.



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