EDIT. · Editorial 8 · 23 Julho 2026
A chave não é a app.
É a mota.
A FAMEL voltou em elétrico e precisa de uma camada digital. A parte difícil não são as funcionalidades: é decidir quem entra, e o que é preciso ter para entrar.
Por Daniel Devera
A FAMEL lança a XF-17. Foi o modelo mais vendido da marca, feito em Águeda por 515 pessoas.
A empresa declara falência. Durante vinte anos, a FAMEL foi uma coisa que existia em garagens, em memórias e em anúncios de classificados.
Aparecem os primeiros protótipos de uma FAMEL elétrica. Em 2022 há 70 pré-encomendas numa feira. Em 2024 entra investimento a sério.
E agora existe uma mota nova, com bateria, ligação e software, à espera de sair para a estrada. Uma mota assim traz uma pergunta que as motas antigas nunca trouxeram: e a app?
Toda a gente quer uma app. Quase ninguém sabe porquê
A resposta preguiçosa é conhecida. Faz-se uma app porque a concorrência tem uma. Junta-se um login, o estado da bateria, um mapa, talvez um botão de bloqueio, e chama-se-lhe experiência digital. O resultado costuma ser um manual de instruções com ecrã de arranque.
Funciona durante duas semanas. Depois o dono abre a app quando alguma coisa avaria, e nunca mais.
O erro não está nas funcionalidades. Está em achar que a pergunta era "o que é que a app faz". A pergunta a sério é outra: quem é que entra, e o que é preciso ter para entrar.
A porta é o produto.
Há uma camada aberta a toda a gente. Podes entrar sem teres mota nenhuma: eventos, rotas, histórias, a cultura à volta da marca. É a porta da rua, e está destrancada.
Depois há uma segunda camada, que só abre quando registas uma mota. E há uma terceira, que também abre com o registo de uma mota, mas de uma mota antiga.
Uma XF-17 de 1976 dá-te entrada num produto digital feito para uma elétrica de 2026. Não como cortesia, nem como easter egg. Como estatuto: guardião do legado.
Pensa no que essa regra diz. A marca decidiu que quem guardou uma mota durante quarenta anos tem tanto direito a estar lá dentro como quem acabou de comprar a nova. Não é uma decisão de marketing. É uma decisão de produto, e muda tudo o que vem a seguir: a arquitetura, os ecrãs, a linguagem, quem fala com quem.
Nostalgia não é um argumento de venda. É uma restrição de design
Há uma diferença entre usar o passado e ser responsável por ele. Usar o passado é fácil: pões o logótipo antigo numa t-shirt, dizes "desde 1949" no rodapé, e vendes memória a quem já a tinha. Ser responsável por ele significa que, quando desenhas o produto, tens de aguentar três pessoas ao mesmo tempo no mesmo sítio.
- 55 anos
Teve uma FAMEL aos 16. Não quer aprender uma app, quer que a marca não lhe minta.
- 27 anos
Nunca viu uma FAMEL a sério, e comprou a elétrica porque é bonita e cabe na cidade.
- 30 anos de estrada
Tem opinião sobre tudo, e vai perceber em dez segundos se quem fez aquilo já andou de mota.
Fazer um produto que sirva as três sem se partir ao meio é, sinceramente, mais difícil do que qualquer funcionalidade técnica que possas listar.
O que estamos a fazer com isto
A FAMEL trouxe-nos este briefing e nós fizemos com ele a única coisa que nos interessa fazer: montámos equipas multidisciplinares e pusemo-las a trabalhá-lo a sério. Não são três turmas em paralelo, cada uma no seu canto. É uma equipa por projeto, com pessoas das três áreas lá dentro, na proporção de um projeto real.
- UX/UI Design A experiência e a interface entre pessoa e máquina.
- Gestão de Projeto O plano, as prioridades, as dependências e o que é exequível de verdade.
- Digital Marketing A proposta de valor, a comunidade e como é que aquilo se ativa.
- Apresentação 29 de Julho de 2026.
É assim que se trabalha lá fora: não três especialidades a entregar três documentos, mas uma equipa em que o plano, a proposta de valor e a interface se discutem na mesma mesa e se estorvam uns aos outros até fazerem sentido juntos. Não é um exercício com um cliente inventado. É um briefing real, de uma marca real, com restrições reais e uma pessoa do outro lado que vai ouvir o pitch e dizer o que acha.
O que fica
A FAMEL passou vinte anos sem existir. Voltou porque alguém achou que ainda havia ali qualquer coisa que valia a pena, e essa qualquer coisa não era a tecnologia. A tecnologia de 1976 não interessa a ninguém. O que sobreviveu foi a relação das pessoas com o objeto.
É por isso que a camada digital não pode ser um acessório da mota. Tem de ser o sítio onde essa relação continua quando o motor está desligado.
Na próxima quarta-feira, as equipas apresentam. Depois disso, mostramos o que fizeram.
Peça editorial da EDIT. Não é comunicação oficial da FAMEL.
Fotografia e identidade: Studio BROTO. Agência: Alma Macchina. Reproduzidas aqui para revisão interna.