Além do UX: porque o futuro do design é sobre sistemas e não ecrãs

Artigo

Porque a próxima geração de produtos digitais não se desenha em páginas, mas em comportamentos, dados e sistemas inteligentes.

O design de produtos digitais está a atravessar uma das maiores mudanças desde o boom do smartphone nos anos 2000. Durante anos, o foco foi claro: páginas, fluxos, interfaces e interações desenhadas em plataformas como Google Slides, Sketch, Adobe XD, Figma e assim por diante. Mas 2025 marcou um ponto de viragem. À medida que a Inteligência Artificial se torna o motor de muitos produtos e os utilizadores navegam entre dispositivos e contextos sem interrupção, algo fundamental aconteceu: os ecrãs deixaram de ser o centro da experiência. E o design deixou de ser apenas UX, passando a ser a arquitetura de sistemas.

É uma mudança silenciosa, mas profunda. E quem trabalha com produtos digitais já a sente todos os dias.

Porque os ecrãs já não chegam

A experiência digital moderna já não vive apenas dentro da interface. Pensemos em exemplos do dia a dia:

  • A forma como o Duolingo ajusta automaticamente a dificuldade das aprendizagens.
  • Como o Spotify recomenda playlists com base no momento do dia, no clima ou até no histórico emocional.
  • Como o Notion AI antecipa o conteúdo de que precisas antes de acabares de escrever.
  • Como assistentes inteligentes, avisam que estás prestes a sair de casa e que nesse dia existe mais trânsito.

Nenhuma destas experiências depende exclusivamente de um ecrã. Aliás, neste momento, depende de sistemas: loops, motores, dados, triggers e modelos de IA que aprendem, adaptam-se e atuam.

Este é um dos pontos mais críticos hoje em dia: O design deixou de se preocupar apenas com “como o utilizador navega” e passou a preocupar-se com como o sistema se comporta.

O que significa desenhar sistemas?

Um sistema é, essencialmente, um conjunto de partes interligadas que cria um comportamento. No design, isso traduz-se em quatro elementos:

  1. Estados: O que está a acontecer agora no produto? E qual é o contexto real da pessoa?
  2. Triggers: O que ativa uma ação pode ser um gesto, um evento, uma previsão, um momento, entre outros.
  3. Regras e restrições: Como é que o sistema decide o que fazer ou o que não fazer?
  4. Loops de feedback: Como é que o sistema aprende e melhora a experiência ao longo do tempo de utilização da ferramenta?

Durante décadas, os designers focaram-se em navegar por ecrãs. Agora, focam-se maioritariamente em orquestrar comportamentos.

Esta é a base de frameworks como:

  • Retention loop: um motor de retenção.
  • Glow framework: um motor de confiança e ativação.
  • LevelUp loop: um sistema de comportamento profissional assistido por IA.

Todos têm algo em comum: não são páginas. São motores.

O futuro não é “screenless” é contexto primeiro

Muito se fala sobre o fim dos ecrãs. A verdade é que os ecrãs não vão desaparecer: vão simplesmente perder protagonismo.

O que realmente está a aparecer é uma experiência contextual, onde:

  • a informação surge no momento certo.
  • assistentes antecipam necessidades.
  • o produto acompanha a pessoa, mesmo quando ela não está a utilizar a ferramenta.
  • interações são automatizadas e discretas.
  • agentes agem de forma colaborativa e não reactiva.

Chamamos a isto:

    • Interações sem ecrãs (screenless screens).
    • Interfaces com comportamentos em conformidade com o ambiente do utilizador.
    • Experiências com base em eventos específicos. 
    • Agentes com camadas e interligados
  • Experiência do utilizador previsível pelo sistema (Predictive UX)

No fundo, estamos a desenhar experiências que acontecem enquanto o utilizador vive a sua vida e não enquanto olha para um dispositivo.

Como funciona esta nova forma de design

1. Mapear contextos reais

  • Onde está o utilizador?
  • O que está o utilizador a tentar fazer?
  • Quais são os objetivos da utilização desta plataforma em relação aos seus utilizadores?
  • Que sinais o sistema pode interpretar? Quais são os sinais que o sistema não deve interpretar ou a que não deve ter acesso?

2. Desenhar comportamentos e não apenas ecrãs

  • Quais as ações que o sistema deve realizar automaticamente? Quais as ações que não deve realizar automaticamente e esperar pelo utilizador ou pelo profissional encarregado do sistema?
  • Como deve reagir quando algo corre mal? Como deve reagir quando algo corre bem? Resumindo, quais as reações para assuntos diferentes?
  • Qual a sua personalidade? Qual o seu comportamento com o utilizador?

3. Orquestrar decisões

  • O sistema deve agir ou perguntar?
  • Decidir sozinho ou sugerir?

4. Integrar dados e IA na experiência

  • Quais são os inputs que alimentam o sistema?
  • Como a IA interpreta estes dados?
  • Como é que a experiência se adapta?

5. Criar loops adaptativos

  • Cada interação melhora a seguinte. O sistema deve ter práticas de feedback loop.

Estamos a falar de AX (Adaptive Experience), o próximo nível do UX. Mas atenção: ignorar a personalização é o erro mais caro que podem cometer. O que funciona para um sistema pode ser um erro total para outro se não existir um ajuste rigoroso aos KPIs e às capacidades técnicas. Estes tópicos servem apenas como ponto de partida. Sem uma reflexão profunda e uma estratégia feita à medida, correm o risco de entregar um produto que falha em adaptar-se e acaba por ser ultrapassado pela concorrência.

O que muda para o designer?

O designer deixa de ser apenas o “criador da interface”. Passa a ser:

  • arquitecto de sistemas.
  • orquestrador de comportamento.
  • estratega de decisão.
  • intérprete de contexto e dados.
  • co-criador com a IA.

Nas reuniões, o foco muda. Já não levamos apenas mockups. Levamos:

  • loops.
  • motores.
  • modelos.
  • triggers.
  • implicações éticas.
  • risco de automação.
  • impacto no comportamento.
  • visão sistémica.

Este salto de complexidade é, na verdade, uma oportunidade disfarçada. Para o navegarem com sucesso, o meu conselho é para definirem um processo que responda aos novos domínios sob a vossa autoridade e os conceitos principais para a lógica e conformidade do sistema.

Uma vez fechado o processo, devem especificar o que cada ponto exige dentro do contexto único do vosso produto e do ecossistema que o rodeia. Por fim, devem dominar a comunicação: apresentem estes dados de forma estruturada para que clientes, chefes e equipas saibam exatamente como executar a sua parte.

Poderia estender-me sobre este tema, mas a realidade é esta: ignorar esta definição é aceitar o caos. Muitos produtos falham não por falta de talento, mas por falta de foco e estratégia. Não deixem que o vosso projeto seja mais um a perder-se no ruído por falta de organização.

Porque é que isto importa para o mercado (e para a carreira)

As empresas começam a perceber que:

  • interfaces podem ser copiadas.
  • funcionalidades podem ser replicadas.
  • mas sistemas inteligentes criam vantagem competitiva.
  • e experiências contextuais geram lealdade e retenção.

A área de UX não está a desaparecer. Está a evoluir rapidamente para um nível mais estratégico, mais técnico e mais ligado ao impacto do negócio. Quem aprender a desenhar sistemas vai liderar esta nova fase. Quem continuar focado apenas em ecrãs vai sentir que o mercado avança sem si.

Conclusão

A pergunta já não é “Qual é o próximo ecrã?”, mas sim: “Qual é o comportamento que queremos gerar?”

O futuro do design não vive no pixel, mas sim no sistema invisível que sustenta o produto. Continuarem a focar-se apenas em “criar páginas” é desenhar para um mundo que já não existe. Hoje, o desafio é criar experiências adaptativas, contínuas e preditivas.

O verdadeiro futuro do UX está, inevitavelmente, além do próprio UX. Ficar preso à estética das interfaces é o caminho mais rápido para a irrelevância profissional. Enquanto o mercado evolui para sistemas inteligentes, quem não mudar a sua mentalidade será deixado para trás, a polir pixels num mundo de sistemas.

O futuro já começou. Qual vai ser o teu próximo passo?


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