Quando falamos em acessibilidade digital, normalmente pensamos em normas técnicas, ferramentas assistivas ou padrões de design. Mas a acessibilidade é, antes de tudo, uma forma de comunicar e incluir pessoas, especialmente quando lidamos com públicos diversos — social, cultural e cognitivamente.
A minha jornada profissional começou muito antes do UX, como a maioria das pessoas dessa área. Estudei Ciências Biológicas na Universidade Federal de Goiás, onde aprendi que o conhecimento só existe quando é transmitido de forma clara, compreensível e útil para qualquer pessoa. Na pesquisa científica, escrever artigos não tinha o objetivo de demonstrar erudição — pelo contrário: o desafio era explicar temas complexos com uma linguagem que alcançasse toda a comunidade científica e, idealmente, a sociedade como um todo.
Com o tempo migrei para a área de marketing e comunicação digital, observei um fenômeno curioso: a linguagem é frequentemente elaborada de forma desnecessariamente “sofisticada”. O uso de jargões ou termos estrangeiros é adotado como uma tentativa de soar mais profissional, mas o resultado prático é o oposto. Por exemplo, dizer ao cliente que “alterar o CTA pode melhorar o KPI e aumentar o ROI” é inacessível e pouco claro. Uma alternativa seria a frase “alterar a chamada para ação pode melhorar o desempenho e aumentar o lucro de uma campanha”. A artificialidade da linguagem, portanto, não aproxima, mas sim distancia as pessoas.
Em resumo, tanto na ciência quanto no marketing, descobri que comunicar não é impressionar — é conectar.
Hoje trabalho com UX para produtos da Caixa Econômica Federal, onde a experiência digital tem impacto direto em milhões de brasileiros — muitos deles em situação socioeconômica vulnerável, com pouca familiaridade tecnológica ou limitações de leitura, visão ou acessibilidade cognitiva.
Nesse cenário, cada opção de interface, inclusive a comunicação, deixa de ser apenas estética e se torna uma escolha com impacto social. Elementos como botões, tipografia, contraste, iconografia, hierarquia visual e microtexto são cruciais, pois todos influenciam diretamente a compreensão do usuário.
E aqui entra uma reflexão essencial já exposta pelo nosso guia do design acessível, Donald A. Norman: “Se uma pessoa não consegue usar, não é problema da pessoa — é falha do design.”
A UX acessível não se trata de desenvolver “versões adaptadas”, mas sim de incorporar o pensamento para todos desde o início do processo de criação.
Mesmo não sendo especialista técnica, percebo que a acessibilidade real nasce de três pilares:
E eu acredito profundamente que a multidisciplinaridade favorece esse olhar. A Biologia me ensinou método científico. O Marketing me ensinou comunicação direta. O Design me ensinou usabilidade. E o UX público me ensinou humanidade.
Se você também trabalha com UX, é bem provável que a sua trajetória tenha sido igualmente plural. Afinal, raramente alguém “começa” diretamente em UX — a maioria chega ao design por caminhos diversos. E essa diversidade não é um detalhe: ela amplifica a nossa capacidade de entender realidades diferentes e, consequentemente, a visão e as limitações do usuário.
Quando juntamos tudo isso, percebemos que acessibilidade não é sobre ferramentas ou padrões técnicos — é sobre pessoas, histórias e contextos.
Num teste de usabilidade recente, conseguimos compreender com mais profundidade quem realmente utiliza o portal. Os dados reforçaram algo que já sentíamos no dia a dia do projeto: estamos a desenhar para uma população extremamente diversa, em termos de idade, escolaridade e habilidades digitais.
Alguns pontos ficaram muito claros:
As faixas etárias entre 36–45 anos e 46–55 anos estão entre as mais representadas. Isso exige interfaces que não dependam de tendências passageiras, jargões técnicos ou padrões exclusivos de utilizadores nativos digitais.
Uma parte significativa do público possui Ensino Médio completo ou Ensino Fundamental incompleto/completo. Isso impacta diretamente decisões de UX writing e microcopy:
Trabalhar com um projeto de amplo alcance significa considerar pessoas com diferentes níveis de letramento digital, diferentes idades e diferentes contextos sociais. Significa aceitar que nem todo utilizador vai “explorar” a interface — muitos só querem resolver um problema específico, rápido e sem fricção.
Nesse cenário, acessibilidade não está apenas no contraste, no foco ou no leitor de ecrã. Ela está na escolha das palavras, na ordem das informações, na previsibilidade das ações e no respeito ao tempo e à atenção do utilizador
Trabalhar com UX no setor público, especialmente num portal como este, reforçou em mim uma convicção: design acessível é design responsável. E quando falamos de serviços essenciais, ele deixa de ser diferencial — passa a ser obrigação.
O grande desafio do UX hoje não é apenas entender como as interfaces funcionam, mas para quem elas funcionam. Em países desiguais, com níveis distintos de escolaridade e acesso digital, o design é mais do que interface: é um instrumento de inclusão social.
Se acessibilidade começa na linguagem, passa pelo design e chega na usabilidade, então o papel do UX não é simplesmente criar produtos bonitos — mas torná-los compreensíveis, utilizáveis e principalmente acessíveis a todos.
Em vez de concluir, deixo uma provocação:;
Ao projetar uma interface, o foco está no usuário idealizado ou nas diversas limitações e realidades das pessoas? É crucial considerar sempre as limitações reais, abrangendo usuários neurodivergentes, disléxicos, com baixa visão, ou aqueles que utilizam dispositivos de acesso atípicos.
Se começarmos essa reflexão, já estamos a caminho de um UX muito mais inclusivo — e muito mais humano.
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