Anteontem, a Framer lançou os Agents: uma IA que, na própria tela, desenha páginas inteiras, cria componentes, escreve código e liga-se ao CMS. Escreves uma frase, aparece um ecrã. Não é um truque isolado. É o sintoma de uma mudança que vale a pena dizer em voz alta: a fronteira entre desenhar e publicar desapareceu.
Antes que entres em pânico: isto não é o fim do designer. É o fim de uma definição de designer.
Durante vinte anos, o trabalho de um designer terminava num ficheiro. Um Figma, um PDF, um protótipo – algo que se entregava a outra pessoa para “construir”. Esse handoff era o limite da nossa responsabilidade e, muitas vezes, o sítio onde as boas ideias morriam. Hoje, o ficheiro deixou de ser o destino. É só mais um passo num caminho que vai do prompt ao produto, sem paragens.
A Figma já não é só um sítio para desenhar: com o Make descreves o que queres e ela gera interfaces a partir dos teus componentes reais; com o Sites, publicas. A Framer levou isto ao extremo – desenhar virou dirigir agentes – e abriu-se a agentes externos via MCP (Claude Code, Cursor) que trabalham diretamente no teu projeto. A Webflow, a veterana do “desenhar é construir”, continua a mais robusta para produção real, mas até ela vive agora num mundo onde a primeira versão já não a desenhamos nós.
O que têm em comum? A execução ficou barata. Qualquer founder consegue, num fim de tarde, uma landing apresentável. E é aqui que muito designer entra em pânico – pela razão errada.
Se “fazer bonito” deixou de ser raro, fazer bonito deixou de ser o trabalho. O prompt é o novo wireframe – mas o critério não se prompta.
O que continua a valer é exatamente o que a IA não te dá de borla: saber que pergunta fazer ao utilizador antes de desenhar (research). Estruturar a informação para que faça sentido (arquitetura). Construir um sistema que escala, em vez de cem ecrãs soltos (design systems). Garantir que o produto é usável por quem não vê, não ouve ou não usa rato (acessibilidade). E, acima de tudo, olhar para o que a IA produziu e saber dizer “isto está errado” – e porquê.
Porque a outra metade da verdade é que estas ferramentas também produzem lixo plausível: HTML não-semântico, SEO frágil, padrões genéricos iguais a mil outros sites. Sem critério, o prompt-to-design não é uma revolução – é uma fábrica de mediocridade, só que mais rápida.
A boa notícia para quem desenha? Nunca o gosto valeu tanto. Quando toda a gente consegue produzir, o que distingue é quem sabe decidir. O designer deixou de ser quem mexe na ferramenta e passou a ser quem dirige o resultado – humano e máquina, lado a lado.
As ferramentas vão mudar outra vez no próximo mês. A Framer 3.0 já está a tornar a 2.0 história. Apostar numa ferramenta é apostar em algo com prazo de validade. O critério, esse, fica.
E é precisamente isso que formamos. O Curso de UX/UI Design (remote) não te ensina o botão da semana – ensina-te a pensar como designer numa era em que a execução é grátis e o discernimento é tudo.
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